Vrum.... Vrum... Vrum.... Com uma caixa na cabeça, o menino
corre pela rua sendo um avião. Naquele lugarzinho atípico, longe da civilização
e a milhas e milhas distantes de qualquer tipo de amor, o garotinho corre
despreocupado pela rua que de tão movimentada é gramada. É o campo de pouso
particular dele. Gramado.
No lote do lado de sua casa, os pegas e escondes ficam mais
emocionantes, dribles no capim alto e cupins como fortalezas, e um ótimo lugar
para se “betar” uma bola... “ah, bons tempos de bete”, um dia ainda diria o
garotinho, isso quando crescido, e já bem próximo dos amores, mas, isso ele
ainda nem sabia, e apenas jogava, e corria, e brincava...
No caminho para a escola, brincar de ser deus, ter imãs
super potentes nos pés que o prendia ao assoalho do ônibus, voaaaarrrr a cada
quebra-molas, treinar arremesso de mochila ao chegar na sala de aula, e ser o
melhor no “salva-cadeia” no recreio. Voltar pra sala suado, sorrindo, alegre e
descompromissado... E jamais pensaria que um dia ainda acharia a vida assim,
tão chata.
Passatempo nas horas vagas era sonhar e teorizar sobre
dimensões, teletransporte, viagem no tempo, buraco negro, milagres genéticos e
tooodas as possibilidades das células-tronco. Ele já sabia que ali morava o
futuro da ciência. Quando não fazia isso, brincava de fazer contas. Isso,
contas. Lapiseira na mão (nunca lápis, nunca 0,7), papel preparado, quanto
tempo levo para fazer 435X785? Valendo! E freneticamente números iam surgindo
naquele pedacinho de mundo branco. E ele ficava depois admirando sua obra...
Além disso, era um exímio devorador de livros, não livro
liiiivros, mas, livros gibis, livros livrinhos, isso ao menos por enquanto. Depois,
mais tarde, descobrira ser um grande viciado em informação, conhecimento,
gigabytes semanais de informação ou ele entrava em depressão. Depressão.
Ele ainda não sabia o quão longe uma palavrinha dessas o
poderia levar. E longe meessmo...
Com essa palavrinha, um dia, ele ia conhecer um mundo
diferente daquilo que ele estava acostumado, um mundo sem brilho, sem sol, sem
lua, com muita chuva. Sem sorrisos, sem presentes, sem amigos, sem ninguém.
Mas, um mundo que por ser tão vazio, era um ótimo lugar para se estar as vezes,
e pensar, e se conhecer...
Mas isso ainda iria demorar, e ele continuava a brincar e a
sorrir, esperando o sol ficar fraco para jogar bete na rua, e esperando aquela sexta-feira
do mês, eram sempre nas sextas que os gibis chegavam e sábado de manhã já era tudo
coisa velha, lida, decorada...
Acho que por isso aprendi desde pequeno a gostar das sextas-feiras.
E esse texto continuará.
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