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Rascunho: Insônia

Eu tenho dois tipos de insônia. Uma eu chamo de silêncio. A outra de barulho.

Ter a insônia silêncio é como estar na lua, em seu lado escuro. Ou no mais alto mar, em uma noite nublada de lua nova, sem vento. É a insônia do nada. O mundo simplesmente não existe, não há nada, nem sequer o contato do meu corpo com o colchão. E estou acordado, vendo o nada passar. Até o relógio despertar.

Essa insônia não me incomoda tanto. No outro dia, estou cansado, mas não estressado. Eu só não dormi, e ok.

Mas se pra todo Yin há um Yang, pra minha Silêncio, há a Barulho.

E ela é caos.

Ter a insônia Barulho é tornar-se animal, predador e caça. Todos meus sentidos parecem mais aguçados, é quase como se enxergasse no escuro. E os sons? Escuto a tudo. A água nos canos, o vento nas folhas, alguém caminhando, uma respiração, um celular que toca, um inseto qualquer na parede, a vibração de uma festa longe. Tudo. Soa. Reverbera. Ecoa.

Se silêncio é noite escura e calma em alto mar, barulho é tempestade em uma rave, apocalipse e big bang, tudo, o tempo todo, ao mesmo tempo. É o caos vivo e pulsando por meu corpo, minha artérias, meu ouvido e cérebro.

E nem sequer falei dele ainda: cérebro, pensamentos. Barulho é caos mental. Profusão de pensamentos desconexos e aleatórios. É tanto barulho entre os ouvidos, quanto há além dele. Vivo em cada noite de barulho mil vidas, da infância à velhice, morro e volto a viver, e a ver a vida passar, mas de caos, escolhas, perdas e ganhos. E morro e volto a viver. E de novo. E de novo.

Noites de barulhos são o inferno. No outro dia estou morto, surrado. Meus pensamentos longe de mim, a cabeça nas nuvens. Dias pós barulho, é dia de pegar ônibus errado. Descer no lugar errado, deixar cair, quebrar. É dia de não ser nada, e tudo que ser, ser errado.

Hoje é noite de barulho. Amanhã é dia de não ser.

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